Breve homenagem a Immanuel Wallerstein

03/09/2019 23:39

“A mudança é eterna. Nada muda jamais.”
Immanuel Wallerstein (1930-2019)

No dia 31 de agosto faleceu Immanuel Wallerstein, que no próximo dia 28 de setembro completaria 89 anos. Poucos intelectuais e ativistas políticos tiveram uma obra tão extensa e influente. Cidadão norte-americano, Wallerstein circulou por vários continentes, com particular atenção e relação com a África e a América Latina. Interessado pelo processo de descolonização posterior à II Guerra Mundial, o jovem intelectual viajou para a África, onde trabalhou e estabeleceu contatos com Frantz Fanon, Samir Amin e Giovanni Arrighi, entre outros.  Sua proximidade com a América Latina se deu através das obras e do relacionamento pessoal com André Gunder Frank, Theotônio dos Santos, Anibal Quijano, Celso Furtado e Ruy Mauro Marini, para citar apenas alguns. Com todos compartilhava a crítica ao sistema capitalista mundial e às teorias sociais que o sustentavam. Mas, diferente desses autores, percebeu que para explicar as novas nações africanas era preciso romper com a epistemologia das ciências sociais fundadas no século XIX. A perspectiva dos sistemas-mundo foi emergindo quando, para explicar as novas nações africanas, estendeu sua análise no tempo e no espaço. Concluiu que só existe um sistema social, o sistema mundial, que ele denominou sistema-mundo, cujo processo de formação e transformação determinava o que acontecia nos Estados e economias nacionais. A partir desta conclusão, dedicou-se a escrever a história deste sistema nos 4 volumes de The Modern World-System, cujo primeiro volume veio à luz em 1974 e o último em 2011. Nesta magnífica obra cobriu o desenvolvimento do sistema-mundo desde seu surgimento no século XVI até 1914. Além dessa revolucionária inovação que foi o sistema-mundo como unidade a ser estudada, na mesma obra também introduziu a noção de semiperiferia. No último volume, publicado quando já tinha 81 anos, ele diz que a obra estaria completa com mais dois volumes. Não temos informações precisas, mas cremos que infelizmente ele não chegou a avançar nesse plano, tanto pela idade, quanto pelos compromissos políticos ao redor do mundo.

Convencido de que as ciências sociais precisavam transcender os limites impostos pelas disciplinas criadas no século XIX (economia, política, sociologia, história, ciência política, antropologia) Wallerstein se dedicou a dialogar com toda elas, liderando a Comissão Gulbenkian para a reestruturação das ciências sociais. Além da mudança social, Wallerstein deu contribuições relevantes para diversos outros temas, entre os quais: o tempo, unidade de análise, história comparada, ondas longas, cadeias mercantis, hegemonia, cultura, ideologia, raça, nação, classes, etnia, gênero e movimentos antisistêmicos.

Immanuel Wallerstein recebendo o título de doutor honoris causa pela UnB em 2009.

Wallerstein, que se autointitulada cientista social histórico foi  também um ativista político que baseava a ação política na sua análise do sistema-mundo capitalista, análise que atribuía especial relevância às mudanças estruturais, o que o impedia de se iludir com as transformações espetaculares (a chegada ao governo de um partido de esquerda, por exemplo), mas em geral passageiras, porque as estruturas continuavam intocadas e operando. Dado que para ele o único sistema social existente é o sistema-mundo capitalista, esse também deve ser o objeto da ação política. Por esse motivo, embora apoiasse, não depositava muita esperança nas lutas pelo controle dos aparelhos de Estados por movimentos de esquerda e se somou com entusiasmo ao Fórum Social Mundial, a cujo lema, um outro mundo é possível, Wallerstein acrescentou “nada garante que será melhor do que o atual”.

Na Universidade Federal de Santa Catarina Immanuel Wallerstein começou a ser estudado no Departamento de Economia em 1999 pelos professores Hoyêdo Nunes Lins, Nildo Ouriques, Pedro Vieira e Wagner Leal Arienti, dando origem à área de Transformações do Capitalismo Contemporâneo em 2003 no Programa de Pós-Graduação em Economia. A inauguração desta área foi brindada com um grande seminário que contou com a presença de Wallerstein, Arrighi, Frank, Theotônio, entre outros.

Immanuel Wallerstein em sua vista à UFSC em 2009. Ao lado, o professor Pedro A. Vieira.

Junto como os ex-alunos Felipe Amin e Fábio Pádua dos Santos, o Professor Pedro Vieira liderou a criação o Grupo de Pesquisa em Economia Política dos Sistemas-Mundo (EPSM) que, desde 2007, ininterruptamente a cada ano, vem organizando o Colóquio Brasileiro em Economia Política dos Sistemas-Mundo, este ano na 13a Edição e que já foi organizado em outras universidades como a UnB, UFPB, Unesp e Unicamp.

Em 2009, por iniciativa do professor Antonio Brussi, na ocasião do III Colóquio, a UnB concedeu a Wallerstein o título de Dr. Honoris Causa. Na sequência, Wallerstein retornou à UFSC, onde – em português – expôs suas ideias sobre a crise da economia-mundo capitalista.

A influência deste grande pensador é notável nos trabalhos que vêm sendo desenvolvido pelos membros do Grupo de Pesquisa. Em alguns casos, Wallerstein contribuiu diretamente, como no livro organizado por Pedro Vieira, Rosângela Vieira, Felipe Amin Filomeno O Brasil e o capitalismo histórico: passado e presente na Análise dos Sistemas-Mundo (Editora Cultura Acadêmica, 2012), para o qual escreveu o texto “A Análise dos Sistemas-Mundo como movimento do saber”, ou no Prefácio que escreveu para Semiperiferia: uma revisitação, de Antonio Brussi (Editora UnB, 2015).

Finalmente, é preciso dizer que a EPSM constitui uma linha de pesquisa da Pós-Graduação em Relações Internacionais e que a UFSC é a referência brasileira na perspectiva analítica criada por Wallerstein, também conhecida por Análise dos Sistemas-Mundo.

Embora estejamos tristes pelo falecimento de nosso GRANDE INSPIRADOR sua obra está aí para ser compreendida, avaliada, continuada e utilizada para entender e mudar o mundo em que vivemos. Porque, sem um entendimento correto, qualquer ação política é aventura inconsequente.

Grupo de Pesquisa em Economia Política dos Sistemas-Mundo

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